segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Prelação do que é vicejar.

Sinto-me vazio como um peixe perfeitamente limpo, mas o mundo continua rodando em seu vórtice implacável. Então, do que adianta toda essa dor balbuciada perante minhas entranhas se os prédios que se erguem na paisagem meramente natural são como túmulos guardando corpos inertes? O céu, agora, deixa de ser vermelho para tornar-se unicamente cinza – só por essa noite. O galopar contundente dos que já se foram e retornam, ecoam em minha cabeça como o martelar uniforme de uma ferramenta sobre seu prego.
Alguém, que vive de atenções alheias, rege uma ordem inaceitável pela maioria dos fiéis amantes de uma democracia unificadora, fazendo com que os pensadores mais amenos assustem-se diante de uma revolução pensante. E as palavras desenhadas em muros protegidos com armas de fogo, fortificam a regência dos maiorais.
Em um lugar sujo e abafado uma garota chora a cada vinte cinco horas. Seu amigo invisível pede para que ela se deite em seu colo, não chore, não feche os olhos. Em outro lugar algo quebra e explode em pedaços desfeitos o que era perfeito para tornar-se irreparável.
Sinto-me mais perdido que um cadáver flutuante sobre as fluentes azuladas de uma corrente de pensamentos, que se esvai na imensidão que é pensar em não ser o que sou. Aos poucos a verdade torna-se distante e minha mão faz movimentos involuntários. Como se parte do meu cérebro agisse contra minha vontade. Pensamentos em vão, irrecuperáveis.
Aquele menino, que se encantava com o brinquedo na vitrine em um canto da cidade, agora é um motorista condenado que atropela pessoas distraídas e enganadas. E aquelas celas batem contra o couro, anunciando a chegada do fim. Dentro de um quarto qualquer, em um lugar indescritível, uma mãe morre em lençóis pintados de sangue e terra, parindo seu filho que lhe acompanha nessa caminhada inferno adentro. E os ratos organizam uma reunião, rastejando sob roupas e peles, esfregando-se, cobrindo e infectando vidas que são arrebatadas e corrompidas – mas ninguém vê.
Sinto-me apagado como uma carta queimada pela mocinha que queria o mundo em suas mãos. Corpos sujos de beatas que se arrastam por cima das camas, rasgando memórias que se desgastam e são disseminadas. Depois, reencontradas pelas pessoas enfileiradas como lápides de si próprias. A festa fúnebre perde-se no eco das próprias palavras condenadas ao silêncio eterno de uma vida sem glória.
Aquela garota colhe estrelas com a mão esquerda enquanto desaparecem por entre as nuvens. Sua mão direita segura sua muleta construída de sonhos e incansáveis pensamentos dissecados pelo bisturi da vida. As avenidas são corredores onde seres mudos fazem uma travessia que lhe duram a jornada inteira de dores e solipsismo.
O amor é uma faca que deve ser segurada pela lâmina por algum tolo, vulgo suicida. Todos são. Todos renegados que andam a vida inteira para no final, recolher seus pertences de uma caixa etiquetada como “sacrifícios funestos”.

O céu troca de cor. A manhã eleva-se. O cinza fica vermelho.

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